'NYT': mundo pode entrar em recessão, mesmo após pacote
Mark Landler
Quando a Casa Branca anunciou seu plano de resgate de US$ 700 bilhões, no mês passado, o imenso tamanho do pacote tinha por objetivo acalmar o sistema financeiro mundial, restaurando a confiança. Mas agora que o plano foi aprovado, seus efeitos parecem os de um pedregulho lançado a um mar revolto.
A crise que começou como um problema especificamente americano relacionado aos empréstimos hipotecários de risco (subprime) agora se espalhou pelo mundo e está voltando à origem.
Embora o pacote de resgate do governo Bush ofereça assistência a bancos estrangeiros, parece ter feito pouco para ressegurar os investidores, especialmente na Europa, onde bancos estão quebrando e os países tomam medidas urgentes para evitar corridas de saques causadas pelo pânico, depois de inicialmente terem minimizado as dimensões da crise.
Longe de ser a solução dos problemas do mundo, dizem economistas, o pacote talvez seja apenas um primeiro passo para conter os problemas dos Estados Unidos.
A queda vertiginosa das bolsas de valores dos dois lados do Atlântico em 6 de outubro refletiu não só esses temores, dizem especialistas, mas uma crença crescente em que a crise possa conduzir o mundo a uma recessão mundial.
De fato, os efeitos colaterais dos problemas na Europa e Estados Unidos foram amplificados ao atingir os mercados de ações da Rússia, Brasil, Indonésia e Oriente Médio.
Esses países pouco têm a ver com a crise subprime, mas estão vulneráveis ao estancamento súbito do fluxo de dinheiro. Não dispõem nem mesmo da camada de cooperação regional ou entre nações que protege a Europa e os Estados Unidos. Os mercados de ações das economias emergentes registraram seu pior declínio diário em 21 anos no dia 6 de outubro, e no Brasil e Rússia as operações tiveram de ser suspensas para conter o pânico dos investidores.
"As coisas à frente parecem bem feias", disse Simon Johnson, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e antigo economista chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), especializado em crises financeiras. "Todo mundo vai ser afetado, dessa vez".
A natureza mundial da crise e seus crescentes dados colaterais, afirma Johnson, deveriam convencer os países a agir juntos - e rápido - para promover uma resposta coordenada.
O problema é que as instituições mundiais já não dispõem dos recursos ou da autoridade necessários a comandar um esforço como esse. O FMI, que desempenhou papel central nas crises da Ásia e da América Latina, perdeu importância, e vem lançando alertas solitários sobre o impacto da crise sobre os países em desenvolvimento.
O Grupo dos 7 (G7), que no passado funcionava como uma espécie de central de comando da economia mundial, também se esvaziou, de acordo com os críticos da instituição. Ele já não representa os responsáveis pelo crescimento da economia mundial, e precisa muito ser expandido a fim de acomodar potências em ascensão como a China e a Índia.
"A globalização da crise significa que precisamos de uma globalização das respostas", disse C. Fred Bergsten, diretor do Instituto Peterson de Economia Internacional. "Mas a maioria das respostas será nacional. Apesar de todas as instituições de que dispomos, não temos as instituições corretas para responder a isso".
Isso é especialmente verdadeiro no caso da Europa, que conta com um banco central eficiente, mas não tem um Legislativo ou Tesouro integrados que coordenem ou banquem um resgate do sistema bancário.
Parte do problema, dizem os especialistas, é a natureza da crise. Resgates a bancos são dispendiosos e impopulares junto aos contribuintes - ainda mais em casos como o da Europa, quando a divisão dos encargos em uma crise é causa permanente de discórdia.
"Os contribuintes não vão aceitar resgatar o sistema bancário de outros países", disse Thomas Mayer, principal economista do Deutsche Bank para o mercado europeu, em Londres. "Nem mesmo na Europa, onde existe uma estrutura neutra, seria possível convencer as pessoas a cooperar em um esforço conjunto".
Com o agravamento dos problemas na Europa, a crise se tornou um salve-se quem puder de base nacional. Quando a Irlanda decidiu garantir todos os depósitos e instrumentos de dívida bancários do país, irritou os vizinhos, que temiam uma fuga de capital para o abrigo mais seguro que Dublin passaria a representar. Agora, Alemanha, Áustria, Dinamarca e Suécia também prometeram garantir depósitos.
"Ao agir de país a país, essas decisões desestabilizam os depósitos das pessoas em outros países", afirmou Johnson. "É incompreensível que os europeus tenham exibido tão pouca coordenação até agora".
Com a Europa e Estados Unidos em profunda crise, dizem economistas, o resto do mundo não tem como escapar ao sofrimento. Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, alertou que a crise poderia ser um "ponto de inflexão" para os países em desenvolvimento.
"Uma queda nas exportações e nos ingressos de capital deflagrará queda de investimentos", afirmou Zoellick em discurso. "A desaceleração do crescimento e a deterioração das condições financeiras, combinadas a um aperto monetário, causarão falências de empresas e possíveis emergências bancárias".
O perigo imediato, dizem economistas, fica nos países do centro e leste da Europa, como Bulgária e Estônia, que acumulam fortes déficits comerciais e são vulneráveis a uma fuga súbita de capital estrangeiro.
A Islândia, com imensa dívida externa e economia superaquecida, pode ser o primeiro país a quebrar com a crise. Em 6 de outubro, sob ameaça de colapso financeiro geral, o governo de Reikjavik assumiu poderes abrangentes de intervenção no setor bancário.
"Estamos diante da possibilidade de naufrágio da economia nacional em meio ao maremoto bancário mundial, e isso poderia causar a falência do país", disse o primeiro-ministro Geir Haarde.
Com a desaceleração acentuada do crescimento mundial, os problemas poderiam se espalhar a mercados emergentes maiores, mesmo o da China, que tem fortes reservas cambiais e superávit em conta corrente.
"Onde a China venderá suas exportações?", questiona Johnson. "Todo mundo estará em recessão ao mesmo tempo".
Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME
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