quinta-feira, junho 11, 2009

O Brasil, o consumismo, o endividamento e a crise mundial

Introdução

Na presente crise mundial o Brasil tem sofrido menos que a maioria dos países. Se comparado com os países desenvolvidos, há enorme discrepância, pois estes países deverão sofrer uma recessão muito forte e por um tempo relativamente longo, enquanto a crise no Brasil, ao menos por enquanto, não deprimiu tão fortemente a economia. Diante disto, muitos, talvez mais por desejo que por convicção, vêm dizendo que há um "descolamento" da economia brasileira em relação a economia mundial.
Neste ensaio pretendo fazer uma ampla análise das raizes desta crise e, com base nesta análise, fazer algumas projeções sobre o comportamento futuro da economia brasileira.


As raizes da crise internacional

Em primeiro lugar, é preciso voltar no tempo e buscar identificar os elementos geradores da presente crise mundial. A existência de "papeis podres" nos balanços dos bancos dos países do capitalismo central, que foi o estopim da crise, precisa ser entendida em suas razões mais íntimas, e, para isto, é necessário entender a dinâmica da formação do estoque destes papeis nos bancos.


A gênese dos papeis podres

A partir da segunda guerra mundial houve uma redivisão dos papeis dos países dentro da nova ordem econômica. Todo o esforço de guerra gerou um enorme parque industrial nos EUA. Depois, com a reconstrução do parque industrial dos países europeus, devastado que foi pela guerra, toda esta capacitade industrial necessitaria de uma demanda crescente por produtos industrializados de forma a sustentar a economia. Neste sentido, passou a ser urgente a geração de um consumo crescente, principalmente nos EUA e Europa.

Ocorre, porém, que o consumo de carros e outros bens mais caros, em larga escala, força a existência de uma classe média consumidora e ávida por comprar e periodicamente torcar seus veículos por outros mais novos, mantendo a máquina industrial em pleno funcionamento e garantindo o funcionamento de todo o sistema de trocas.

Os empréstimos de longo prazo, a partir da emissão de títulos do tesouro americano com prazos de 30 anos, permitiram criar mecanismos de financiamento para o consumo em prazos longos. A partir daí, e sempre tendo-se em mente que o parque industrial precisa manter-se funcionando, o nivel de endividamento dos consumidores nos EUA foi sempre crescendo.

O consumismo como cultura, função econômica e até estética

Tal como previra Karl Marx, ainda nos primódios do capitalismo industrial, a máquina produtiva acabaria por tornar o produto como algo fetichizado, autônomo, com vida própria. Andy Warhol retratou como ninguém a estética do produto.



O produto e seu consumo passaram a ocupar lugar central nas relações sociais. Consumir mais, e produtos mais caros, passou a ser associado a poder e status. As pessoas e as relações entre elas (relações sociais) passaram a se dar, cada vez mais, em função da capacidade de consumo. A questão do consumo e da sua reificação na sociedade contemporânea foi brilhantemente analisada pela Prof. Dra. Valquíria Padilha, da USP, em seu recente livro "Shopping Center: a catedral das mercadorias", Ed. Boitempo, 224p.

Os primóridos da crise

Relendo alguns artigos publicados em 2002 e 2003, vê-se que a questão do consumo e do endividamento, principalmente dos consumidores norte-americanos, já caminhava para um patamar insustentável. Veja-se, apenas como exemplo, o seguinte trecho do "Le Monde Diplomatique" de Abril de 2003:

"Entre os elementos de uma estrutura financeira em falência, o grau de endividamento é o que mais preocupa. Em 2001, este representava, para os Estados Unidos, 31% do Produto Interno Bruto mundial, contra 26% para a União Européia e 12 % para o Japão. Três regiões do mundo em que se destaca o espectro da deflação, num contexto de contração da produção e do comércio. Com exceção da China, a indústria opera com 65% de sua capacidade de produção. Pelo terceiro ano consecutivo, os mercados das bolsas continuaram a degringolar. O índice de confiança dos consumidores (Conference Board) caiu de 145, no início de 2000, para cerca de 80 no começo de 2003 (tomando como referência uma base 100 em 1985). O dólar perdeu 12% de seu valor em relação a uma cesta de outras moedas desde janeiro de 2002, e 26% de seu valor diante do euro desde 2000 - uma das maiores derrapagens do período pós-Segunda Guerra Mundial. Esses poucos elementos fragmentários - combinados com um desemprego em alta1, uma estagnação dos salários e um consumo que se mantém com dificuldade - compõem um quadro que não estimula o otimismo."O endividamento que ameaça o império, Le Monde Diplomatique, abril/2003

Acreditava-se, porém, que o nível do consumo poderia continuar sendo financiado eternamente a partir dos instrumentos financeiros que espalhavam dívidas e papéis ao redor do mundo, numa ciranda infinita e, de tão pulverizada, impossível de se quebrar.

O fim do financiamento do consumo

Se algo que pode um dia dar errado, certamente o dará, a crise de financiamento gerada a partir do acúmulo de créditos podres em poder dos bancos gerou um efeito cascata sobre todo o sistema capitalista. Por estar interligado, o contágio acabou por gerar crise em toda parte.

Aqueles, como o Brasil, que não possuiam no balanço dos seus bancos créditos podres, e portanto estiveram a salvo da primeira onda da crise, a financeira, logo passaram a sofrer com as outras ondas sucessivas, quando a crise financeira foi tornando-se uma grave crise econômica.

Uma crise estrutural ou apenas conjuntural?

Uma crise de valores

"Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo. Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí que pareça que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia. O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo."
Desencanto, Cadernos de Saramago, José Saramago, acessado em: 11/06/2009

Uma desgraça, diz um adágio popular, nunca vem sozinha. Desta forma, a crise econômica tem gerado, como sub-produto, uma onda de desolação, desemprego, falta de perspectivas de futuro que destroi e rasga o tecido social. Há uma angústia que se generaliza, uma ansiedade para que tudo se resolva logo. A inépcia dos governos ao lidar com esta crise mostra que souberam libertar e alimentar o monstro, mas não fazem a minima idéia de como encarcera-lo novamente.

Nenhum comentário: