Pode parecer estranha e contraditória a afirmação do título deste comentário, mas é uma conclusão que me parece perfeitamente válida. Vou construir os dois cenários e expor o raciocínio que está por trás desta estranha afirmação.
Suponhamos que vença a Dilma. Com os apoios e as costuras que fez, e não vou me alongar em desfilar os nomes dos políticos que estão no seu palanque pois acho desnecessário, é lógico que seu governo será extremamente problemático. Lula construiu - especialmente a partir do mensalão - uma relação corrupta - no sentido de compra e venda de apoio - no congresso nacional, e o inquérito convertido em processo penal pelo STF é mais que eloqüente para evidenciar isto. Esta relação corrompida - na base do "toma lá dá cá" -, foi tornada ainda mais forte a partir da reeleição do Lula, quando as forças políticas entenderam que, se tudo aquilo ainda permitiu ao Lula ser reeleito, estava inaugurada uma nova época no Brasil, onde tudo é permitido, até mesmo contra a Lei.
Este consenso em torno do Lula no segundo mandato é fruto de um cálculo político: o que antes renderia impeachment, processos criminais, quebras de sigilo, agora, no novo Brasil pós-mensalão, não rende mais nada. Está tudo liberado, escudados na imensa popularidade do Lula, que eles julgam imune a qualquer contratempo. Se a popularidade do Lula falhasse, haveria-se de acusar "um golpe das elites", colocando os ditos "movimentos sociais" - na verdade, Organizações Não-Governamentais (ONF's) que na verdade são governamentais, pois recebem (muito) dinheiro do governo Lula, coisa que só existe no Brasil -, incendiando a nação.
A perpetuação da bandalheira precisaria contar com instrumentos que pudessem calar os órgãos de fiscalização da União, em particular o TCU e o MPF. E Lula não perdeu uma única oportunidade de denegrir ambas instituições, do alto da sua popularidade e do seu discurso ora triunfalista - do "nunca antes neste pais" -, ora vitimizando-se, pondo a culpa pelos atrasos das obras do PAC, por exemplo, no TCU, quem é obrigado a fiscalizar e embargar obras e licitações evitando o desvio de dinheiro do contribuinte.
Os absurdos acima relatados - per si - já seriam suficientes para causar espanto, e certamente serão melhor avaliados pela história. Talvez o Lula - logo ele, tão esperto -, não tenha percebido o tamanho do mal que ele criou. Se assim for, pior ainda será o julgamento que a história fará da sua pessoa. Mas o fato é: por que o Lula, passando por cima das leis e da própria história, quer porque quer eleger sua sucessora, que ele sabe não tem o mínimo preparo para o cargo?
A questão é que ele acredita - e seus aduladores devem ter lhe dito -, que se a Dilma for eleita ele retornará quando quiser à Presidência. Desta forma, estaria garantida a impunidade de todo este grupo de políticos que está no seu palanque.
Supondo então que a Dilma seja eleita, qual será o quadro:
a) uma classe política movida por interesses "pouco republicanos" levará, agora às últimas conseqüências, o processo de esbrulho do patrimônio do estado;
b) a PF, o MPF e o TCU serão amordaçados e apedrejados, com a anuência de um STF escolhido quase que totalmente por Lula e logo depois por Dilma. Ou seja, a interpretação da Constituição e a aplicação da Lei estarão irremediavelmente comprometidas;
c) o PT e seus "movimentos sociais" haverão de formar um Estado-Paralelo, num agravamento do aparelhamento do Estado já hoje praticado em ampla escala, como se pode ver nos órgãos públicos, nas agências reguladoras e nas estatais;
d) as liberdades políticas estarão seriamente comprometidas graças ao para-estado petista infiltrado e monopolizando todas as instituições em prol da bandalha.
Dentre todas as alternativas que estavam à disposição do Lula em 2008 para fazer frente à crise, ele optou pela mais fácil e populista, porém a que irá deixar a situação mais problemática no futuro: rompeu com a disciplina fiscal e continuou gastando como nunca. É lógico que é uma situação insustentável, mas que irá estourar inevitavelmente mais adiante.É lógico que, somando-se todo este conjunto de coisas e mais o enorme rombo causado no orçamento público, teremos enormes problemas à frente no plano econômico, com enormes dificuldades, por parte do governo, de fazer um plano de austeridade fiscal.
Prosseguindo com a análise, um aperto será necessário, mas uma Dilma teria condições políticas de fazê-lo?
É lógico que a semente de crise que está sendo plantada logo logo tomará o lugar da plantação, como erva daninha, e será muito mais árduo o seu combate.
Um governo Dilma será, portanto, um governo muito perigoso, sob todos os sentidos e em todos os aspectos. E, embora o próprio Lula não perceba hoje, cedo ou tarde a verdade aparecerá, e quanto mais tempo levar, maior será o tamanho da encrenca em que ele estará metido.
Por outro lado, supondo que o Serra ganhe, o que ele terá que fazer?
Corrigir os problemas deixados pelo Lula exigirá - de novo - fazer o trabalho impopular de disciplina fiscal que o Fernando Henrique fez, e que foi e é aproveitado pelo Lula. Ou seja, os tucanos estão se assemelhando aos democratas norte-americanos, enquanto o PT está agindo como os republicanos. E os republicanos, por sua irresponsabilidade fiscal, sempre acabam se dando melhor.
Não é justo que somente um partido tenha que arcar com os custos e encargos enquanto os outros fiquem somente com o bônus. O povo brasileiro terá que aprender a votar no governante fiscalmente responsável, ou deve arcar com todas as consequências de suas escolhas. Se para isto deve ganhar a Dilma, se para isto for necessário levar às últimas consequências o petismo, que seja.
Numa estratégia conseqüente, ao PSDB pode interessar mais que a Dilma ganhe que o Serra, pois todo o ônus do ajuste fiscal recairá sobre ela. Uma governante inexperiente e sem a história mítica de um Lula dificilmente conseguirá suportar o ônus e o desgaste que um ajuste fiscal rigoroso exige. Fernando Henrique conseguiu lidar com o PFL a duras penas, o Lula resistiu graças a sua ascendência sobre o PT e à colaboração da oposição, que não saiu apostando no quanto pior melhor, dando apoio ao Palocci para manter o rigor da política monetária e fiscal. Mas e a Dilma? Com este leque de alianças artificialmente construídas e sem história pessoal para sustenta-la, conseguiria fazer tal ajuste?
Ou seja, para o PSDB um governo fraco da Dilma pode ser interessante. Dotado de quadros de enorme experiência e valor, e contando com tantos serviços prestados ao país, o PSDB é um partido que já conquistou lugar permanente na política nacional. Na primeira crise, seus quadros serão chamados ao protagonismo político.
Suponhamos, por outro lado, que a Dilma ganhe e governe, faça o ajuste fiscal e consiga, de um modo qualquer, superar a herança maldita do governo Lula. Neste caso, mesmo assim, todo o desgaste destas alianças e do processo de ajuste certamente deixarão seu governo muito queimado, especialmente se a oposição partir para um processo de desgaste lento e persistente, do mesmo tipo praticado pelo PT até chegar ao poder.
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