sábado, outubro 24, 2015

A taxa SELIC para "inglês ver".

O descalabro é tanto que o Estado Federal (União) está pagando uma taxa de juros nos títulos pós-fixados ao custo de IPCA + 7,19% a.a., enquanto o interbancário (empréstimo entre bancos) está em 14,33% (anualizada). A selic nominal está em 14,15% a.a, mas, na prática, o tesouro está vendendo títulos pós-fixados ao custo de (9,49% + 7,19%) a.a. = 16,68% a.a. Ou seja, juros reais de 7,19% a.a. O tesouro direto teve suas operações suspensas em 14 dias úteis somente neste mês de outubro/2015, sempre com a mesma justificativa: "devido à forte volatilidade nas taxas de juros dos títulos públicos [...], informamos que o Tesouro Direto foi suspenso às [...]. A expectativa é de normalização [...]." E eu que pensava que já tinha visto de tudo nesta vida, descobri que é possível existir volatilidade até no mercado de renda fixa! O lógico seria ajustar a SELIC ao preço real, ou seja, no mínimo a 17% a.a. Desse jeito fica incompreensível e ilógico. Não sou vulcano como o Dr. Spock, mas isso viola as leis mais elementares da racionalidade econômica.

Como se explicaria algum agente econômico comprar um título prefixado pela taxa SELIC que está em 14,15% a.a. quando o mesmo Tesouro Nacional vende títulos pós-fixados com taxa real de 7,19% a.a (IPCA + 7,19%), o que está dando quase 17% a.a. e o CDI (certificado interbancário) está em 14,33% a.a. (taxa atual anualizada)? Bem, os bancos têm que emprestar sua sobra de caixa para os que têm falta de caixa no mercado interbancário por questões de prazo. São aplicações overnight. Eles não podem, por questões de fluxo de caixa, emprestar a um prazo maior que 1 dia. Logo, estão presos ao CDI. Além disso, o governo "obriga" os grandes bancos a comprarem seus títulos prefixados, mesmo a uma taxa desfavorável. Por outro lado, os investidores institucionais (fundos de pensão estatais) são "clientes cativos" do Tesouro Nacional, porque são, na prática, controlados pelo governo. Logo, são também obrigados" a comprar títulos prefixados, mesmo que isso contrarie os interesses dos seus associados. Restam os investidores "livres", sejam eles nacionais ou estrangeiros. Esses, logicamente, nunca comprariam um título prefixado a uma taxa inferior à que podem obter com um título pós-fixado que está pagando 7,17% a.a. de juros reais (descontada a inflação). Isso explica a volatilidade.

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