segunda-feira, outubro 12, 2009

Toda ciência transcendendo

Por São João da Cruz

Entrei onde não soube
E quedei-me não sabendo,
toda ciência transcendendo.

1. Eu não ouve onde entrava.
Porém, quando ali me vi,
sem saber onde estava,
Grandes coisas entendi;
Não direi que senti,
que me quedei não sabendo,
Toda ciência transcendendo.

2. De paz e de piedade
Era a ciência perfeita,
Em profunda soledade
entendida (via reta);
Era coisa tão secreta,
Que fiquei como gemendo,
Toda ciência transcendendo.

3. Estava tão embevecido,
Tão absorto e alheado,
Que se quedou meu sentido
De todo o sentir privado:
E o espírito dotado
De um entender não entendendo,
Toda ciência transcendendo.

4. O que ali chega verdadeiro
De si mesmo desfalece;
Quanto sabia primeiro
Muito baixo lhe parece:
E seu saber tanto crece
Que se queda não sabendo
Toda ciência transcendendo.

5. Quanto mais alto se sobe,
Tanto menos se entendia,
Como a nuvem tenebrosa
Que na noite esclarecia;
Por isso quem a sabia
Fica sempre não sabendo,
Toda ciência transcendendo.

6. Este saber não sabendo
É de tão alto poder,
Que os sábios discorrendo
Jamais o podem vencer;
Que não chega o seu saber
A não entender entendendo,
Toda ciência transcendendo.

7. E é de tão alta excelência
Aquele sumo saber
Que não há arte ou ciência
Que o possam apreender:
Quem se soubera vencer
Com um não saber sabendo,
Toda ciência transcendendo.

8. E se o quiserdes ouvir,
Consiste esta suma ciência
Em um subido sentir
Da divinal Essência;
É obra de sua clemência
Fazer quedar não entendendo,
Toda ciência transcendendo.

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