Relembrando minha literatura comunista da fase adolescente, relendo em especial o livro "A Revolução Proletária e o Renegado Kautsky", de Lênin(1918), confesso que fiquei espantado com a sua atualidade fática em relação à democracia burguesa e, em especial, à semelhança entre o PT que hoje governa, com todo seu discurso operário e sindical dito "de esquerda", e as idéias do renegado Kautsky, combatidas por Lênin neste livro.
É impressionante como a esquerda brasileira perdeu completamente o rumo e não consegue perceber o embuste que é o governo Lula, especialmente quando analisado sob a ótica marxista. Me surpreende que os ditos marxistas ainda considerem Lula e seu partido como pertencendo à esquerda, mesmo sabendo que o gov. Lula é extremamente generoso com os banqueiros - talvez o mais generoso de todos - e distribui apenas migalhas, sob a forma de programas sociais mantidos com o dinheiro extorquido dos reais trabalhadores assalariados, os únicos que realmente são tributados neste país, para a massa de camponeses e marginalizados em geral.
Uma leitura marxista do governo Lula revela de imediato o seu real caráter de manutenção do capitalismo. Sequer as bases da sua sustentação - os programas sociais de um lado e os altos juros para os banqueiros, de outro - inovam. É útil relembrar que foi Antônio Carlos Magalhães quem propôs a criação do "Fundo de combate à pobreza", que permitiu a criação dos tais programas de distribuição de dinheiro diretamente para o povão.
Se está claro e cristalino - e desde o primeiro instante - que este governo apenas repete uma fórmula velha - e sempre repisada - de manutenção do estado capitalista burguês combinada e estribada na distribuição de esmolas para o povo, por que cargas d'água a dita esquerda revolucionária ainda apóia o governo Lula?
Na verdade, o sucesso do governo Lula deriva justamente da combinação de duas políticas: distribuem-se alguns bilhões para o povo de um lado, sob a forma mais descarada de clientelismo, e distribuem-se vários e vários outros bilhões para os bancos e rentistas do outro, satisfazendo os capitalistas financeiros incrustados e dependentes das benesses estatais.
Se é assim, pode-se argumentar, quem paga esta conta? Afinal, para que se faça a partilha entre capitalistas e povão é preciso que alguém produza. Ora, é fácil de ver que nunca, em tempo algum, a dita classe média, hoje composta por funcionários de médio escalão e operários, foram tão extorquidos.
Se olharmos os balanços dos bancos varemos que estes pagam uma alíquota média de imposto em torno de 15%. Por outro lado, os rentistas não mantém suas fortunas no Brasil. Eles as mantém em empresas off-shore e ingressam no Brasil como se fossem investidores estrangeiros, que ao contrário dos investidores locais não são obrigados a pagar impostos.
Tem-se aqui a receita do sucesso: mantém-se multidões de excluídos e marginalizados do capitalismo avançado na miséria, sem acesso a saúde ou educação de qualidade, dependentes de toda sorte de "favores" que servem como moeda de troca para a manutenção política do status quo. Esta classe funciona como o "rebanho" dos currais eleitorais, que revelam de imediato a essência da "democracia burguesa" - já que estamos fazendo uma análise marxista.
Analisar como se distribui a renda no Brasil é ainda mais revelador. Tome-se o artigo de Raul Veloso no Jornal O Globo, 12/10/2009:
"Passados 20 anos da promulgação da Constituição de 1988, o governo conseguiu um feito impressionante. Pôs em prática um modelo de sustentação e expansão da demanda de consumo de um grupo gigantesco que, com base em dados de 2005, pode ser estimado em cerca de 40 milhões de pessoas, sem contar seus dependentes.
No ano passado, o total dos pagamentos diretos a essas pessoas alcançou a cifra chocante de R$ 378 bilhões, nada menos do que 2/3 do Orçamento federal.
Em comparação com 1987, esses pagamentos cresceram 72% acima da inflação e pelo menos 6% acima do PIB, implicando forte queda da poupança nacional.
Trata-se dos itens Previdência, pessoal e assistência social, exatamente os de maior peso individual nos pagamentos da União.
Se agregarmos a esses itens os desembolsos com saúde e as demais despesas correntes, chegaremos a um orçamento de gastos correntes provavelmente sem similar no exterior, cujo total se situa em pelo menos 83% do orçamento não financeiro da União.
Desse, aliás, apenas 5% se referem a investimentos, enquanto os restantes 12% correspondem ao pagamento de parcela do serviço da dívida.
Para gerir os rendimentos dessa massa, o governo toma basicamente quatro decisões ao longo do ano, todas alvo de muita discussão no Congresso e na mídia, por razões óbvias: reajustes do salário mínimo, dos benefícios do INSS acima de um salário mínimo, do valor individual do Bolsa-Família e dos servidores públicos.
Em resumo, o Orçamento federal virou uma impressionante "folha de pagamento", e ainda assim isso não o exime de críticas. Há dúvidas sobre o grau de proteção efetiva conferido aos segmentos mais pobres da população, pagam-se salários de servidores bem acima do setor privado em funções similares."
Vê-se aí, claramente, qual o papel do Estado que vem sendo desenhado e aprofundado nestes últimos 10 anos. Junta-se a estes fatos um claro retorno ao estatismo, muito em voga nos anos 50, e podemos, logo, logo, vermos a volta triunfante fascismo.
Por que o fascismo? Porque o fascismo une o viés populista ( dar dinheiro ao povo ), com forte intervenção estatal, servindo o Estado como grande diretor da economia.
Os exemplos recentes na Venezuela, na Argentina, as tentativas de calar a imprensa, o golpe mal sucedido do Zelaya em Honduras, com inspiração no bolivarianismo Chavista, permitem-nos antever que o fascismo retorna a passos largos na América Latina.
Se se olha para o mundo, com as teocracias islâmicas tentando obter bombas atômicas, aliadas aos comunistas da Coreia do Norte, é de espantar o quadro que salta aos olhos.
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