Uma vez por semana, pago a uma diarista para fazer uma faxina no meu apartamento. Isso se repete há anos e essa prestadora de serviços domésticos e eu nos tornamos amigas.
Sei, faz tempo, que Maria batalha para se integrar à classe C do Brasil. Está contente, portanto, por se descobrir entre aqueles que detém atualmente os 46% da renda do país.
Como isso aconteceu? Segundo a própria Maria, as coisas passaram a melhorar para ela a partir da estabilidade econômica, em 1994. Quando o cruzeiro, a antiga moeda totalmente desvalorizada por uma hiperinflação absurda, acabou substituído por uma nova moeda com poder de compra até o final de mês.
- Não tinha como! Antes do real o dinheiro não valia, não dava pra nada. A gente só trabalhava, trabalhava... Com o real consegui juntar e comprei minha primeira televisão.
Falou Maria sem provocação política. Da minha parte, nenhum papo furado de economia; apenas respeito à memória do cotidiano brasileiro, que mudou realmente a partir de 1994. Qual a mudança? As pessoas comuns, por exemplo, tiveram a chance de planejar e melhorar suas vidas.
Oxente! Maria foi uma delas.
Entretanto, sua saga começou antes, quando migrara corajosamente do sertão nordestino a fim de encarar, ainda muito jovem e mãe solteira, o que desse e viesse no Rio de Janeiro. Penou.
Com baixíssima escolaridade, sua única opção acabou sendo o trabalho doméstico. Porém, além de ralar para valer, investiu inteligentemente na educação da filha; funcionária no escritório de uma multinacional. A moça está familiarizada com inglês e informática.
Agora, mãe e filha fazem parte dos 91 milhões de cidadãos que estão formando a nova classe média brasileira. Elas têm fogão, geladeira, televisão, máquina de lavar, forno de micro-ondas, computador, internet, telefone fixo e telefones celulares. E, recentemente, cartão de crédito.
Há três anos, Maria morava numa comunidade em Caxias (município do Grande Rio). Com a venda da casa que possuía e um empréstimo, conseguiu comprar um apartamento, de quarto e sala, em um prédio da rua Haddock Lobo, na Tijuca.
A nova residência é ótima: andar alto, de frente; luminosa, ventilada e indevassável. Lá estive como convidada para a festinha de inauguração do apê. Eu e os outros clientes de Maria; seus ex-vizinhos mais achegados da comunidade em Caxias; mais os amigos e os colegas de trabalho da filha.
Ano passado, as duas viajaram pela primeira vez de avião, de férias, para uma praia do sul da Bahia. Encantaram-se. Era a conquista de participar do mundo prazeroso dos bacanas.
Com direito de se comportarem como clientes e também serem bem servidas. De conhecerem outras pessoas em férias e ampliarem suas relações sociais.
Maria continua como diarista, dando duro em várias casas; a cada dia da semana. É uma pessoa animada e frequenta uma igreja evangélica. Sem fanatismos. Nunca tentou me doutrinar.
Por que a gente se comunica tão bem? Talvez por estar sempre querendo aprender algo mais que valha a pena. Às vezes ela me "consulta" sobre questões afetivas ou me pede um esclarecimento sobre algo que ouviu e não entendeu direito.
Ela me assessora nas pesquisas populares e na curiosidade sobre comportamentos. Conta-me cada história...
Esse pequenino retrato de um Brasil século XXI parece não existir ainda para todos. Mas dá para pensar que o país caminhará em boa marcha se a nova classe média se expandir com saúde, boas oportunidades de trabalho, empregos e serviços bem remunerados.
Com educação de qualidade, daqui pra frente, tudo pode ser muitíssimo melhor.
Ateneia Feijó é jornalista
Nenhum comentário:
Postar um comentário