Na verdade, o endividamento dos brasileiros tem subido em termos de proporção do PIB. O fato de estar hoje em 40% do PIB, quando visto de forma isolada, não chega a ser preocupante, haja vista que em muitos outros países esta taxa de endividamento das famílias chega a mais de 100% do PIB.
O que pode se tornar um problema é que, no Brasil, os bancos se acostumaram a emprestar o dinheiro dos investidores ao governo, comprando papeis do tesouro nacional para financiar a chamada dívida interna. Esta dívida tem crescido, nem tanto em relação ao PIB, mas em termos absolutos, e de há muito já ultrapassou a casa dos R$ 1,5 trilhões. O problema torna-se mais grave quando se sabe que o governo expurgou de suas contas uma série de despesas para poder fechar as contas de 2009, quando pela primeira vez em mais de 10 anos tivemos deficit primário. Ou seja, o governo não conseguiu amortizar nada da sua dívida no ano de 2009, e provavelmente deve ter se financiado tomando dinheiro emprestado para pagar os juros.
Ora, prosseguindo deste jeito, é lógico que num cenário onde tanto as famílias estão endividadas quanto o governo, pode ser que falte dinheiro para rolar a dívida de tanta gente, o que pode significar um aumento na taxa de juros.
Seguindo a lógica, um setor público altamente endividado concomitantemente a famílias num grau alto de endividamento (em termos históricos), num cenário de aumento na taxa de juros, pode significar quebradeira de um lado e deterioração fiscal do outro, interrompendo o ciclo positivo que temos vivido e cirando sérios obstáculos ao crescimento econômico.
O perigo de crescer através do aumento do endividamento e da poupança externa é que esta é uma forma insustentável a longo prazo, como nos ensinou a crise norte-americana, que se tornou crise mundial. O crescimento ecocômico saudável, e a história nos ensina bem isto, é sempre decorrência de altas taxas de poupança por parte do governo e das famílias. O Japão do pós-guerra é um exemplo clássico.
O grande problema do período do Fernando Henrique foi que ele ousou tentar pôr um fim à gastança desenfreada por parte do Estado, que, graças a seu descontrole, sequer conseguia tomar dinheiro emprestado, o que fazia com que tal gastança levasse à impressão de dinheiro, pura e simples. Lembro-me do mês que Sarney emitiu 100% da base monetária. No mês seguinte, a inflação mensal projetada era de … 100%.
O grande perigo é que o Lula conseguiu provocar um aumento permanente de gastos, através do aumento no tamanho do Estado, num momento de crise internacional, quando precisaríamos contar com uma poupança interna robusta.
Se as condições externas se deteriorarem, e houver um aumento nas taxas de juros mundiais, teremos sérios problemas para financiar a dívida pública interna, e teremos uma quebradeira generalizada das famílias e, por consequência, de quem financiou o seu consumo, no caso, as financeiras e indústrias. Ou seja, estamos criando aqui os mesmos problemas que deram origem à crise de crédito dos EUA, com os mesmos ingredientes.
O Lula é um mago das aparências. Um ilusionista.
Mas ele deve ter sido informado que sua tática é insustentável a longo prazo.
A questão é que interessa-o apenas eleger a Dilma. Se ele não conseguir, que a bomba estoure na mão de um Tucano. Ele poderá sempre pôr a culpa no próprio povo, que não elegeu quem ele queria.
Por outro lado, se a Dilma se eleger, e ele perceber que a situação se deteriorou, basta romper com ela e dizer que “se fosse eu nada disso teria acontecido”.
É lógico que o povo – ou boa parte do povo – atraibuirá parte da culpa a ele. Mas, diante das circunstâncias, é sempre melhor 50% do que nada.
Se a crise for extremamente grave, não faltarão aqueles que tantarão transforma-lo em Lula I, o imperador do Brasil. Ou em um novo Getúlio Vargas, que depois de ditador foi eleito numa tentativa de pôr fim à crise.
Ou seja, do ponto de vista estritamente pessoal, a situação do Lula é extremamente confortável. Nem tanto está o PT, a Dilma, a Oposição ou o Serra, em particular.
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