Para George Lakoff, os conservadores vêm travando uma guerra cultural onde o principal campo de batalha é o cérebro. Em causa está a América e o que ela é. Seu objetivo, segundo ele, é mudar radicalmente a América para que ela se ajuste à visão de mundo da moral conservadora. A ameaça é à Democracia e tudo que a acompanha. Não apenas lá, nos EUA, mas até onde chegar a influência (norte-)americana.
Existem dois conceitos aqui que valem a pena serem analisados:
a) a questão da guerra cultural e
b) a questão da visão conservadora ser contrária a uma possível natureza essencial da América (norte-américa, pois o autor centra sua análise nos EUA).
Ainda para ele, "os valores (norte-)americanos são fundamentalmente progressistas, centrados na igualdade, direitos humanos, responsabilidade social, e a inclusão de todos". Neste ponto, o autor mostra claramente sua visão socialista.
A partir daqui, já começo a ter dúvidas sobre a seriedade desta análise "Lakoffiana". A visão expressa pelo Lakoff faz parecer que os (norte-)americanos são socialistas desde criancinhas, mas que os conservadores (os maus), conseguiram ganhar a guerra cultural, transformando os EUA numa nação desigual e implantando o capitalismo selvagem.
Tudo bem que é sabido de que lado está o Lakoff: dos Democratas, que para ele - ao que ele deixa transparecer - encarnam o único "ethos" legítimo e o espírito essencial da América. Tudo isto me faz lembrar a idéia do "bom selvagem" de Jean-Jacques Rousseau, expressa no seu ensaio "Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens".
Acho uma pena que um cientista como o Lakoff reduza o alcance da sua análise transformando a arena política num jogo simplista entre dois times: o dos progressistas e o dos conservadores, por ele encarnados nos partidários do partido Democrata e Republicano, respectivamente. Pior ainda é que ele já atribui - de antemão - uma natureza à América, que na sua opinião seria essencialmente - originalmente - socialista, mas que vem sendo corrompida pelos conservadores, que na sua visão são a encarnação do Mal.
Neste ponto, é útil deixar claro que os conceitos de conservador e de liberal do Lakoff são distintos destes mesmos conceitos e rótulos usados na arena politica brasileira. Aqui, ser liberal - pior ainda neoliberal - é - ou pelo menos era - usado como xingamento pela "esquerda" - principalmente a petista - antes dela chegar ao poder e manter todas as políticas econômicas herdadas de quem antes criticavam. Aqui na América latina, talvez por uma particularidade histórica a ser analisada, quase todos os políticos se dizem "de esquerda". Ser "de direita" ou "neoliberal" parece ser algo infamante.
Não aceito muito bem a idéia de que a (Norte-)América de Lakoff seja essencialmente isto ou aquilo. Me cheira a propaganda panfletária.
Quanto à questão da guerra cultural, esta sempre esteve em voga. Aliás, um dos primeiros autores da ciência política a revelar a importância da guerra cultural do ponto de vista político foi Gramsci, que criou conceitos tais como "intelectuais orgânicos do partido" e "aparatos ideológicos do Estado".
Por outro lado, se para Marx a chamada superestrutura derivava da infraestrutura, bastanto mudar o modo de produção para que as idéias passassem a refletir um novo modo - então socialista ou comunista - de ver o mundo, na prática, o Leninismo e todos os outros "ismos" da esquerda comunista e socialista somente tiveram sucesso através da sua luta no campo cultural e de propaganda.
Soube-se depois do fim da URSS, por exemplo, que muitos dos intelectuais da social-democracia européia eram secretamente financiados pela antiga URSS. No livro "Double Lives: Spies and Writers in the secret societ war of ideia against the west", Stephen Koch mostra de que forma Lênin, através de Willi Münzenberg, montou uma vasta rede de espionagem e propaganda cultural na Europa Ocidental.
Sabendo da importância que a propaganda ideológica teve - e ainda tem, em Cuba, por exemplo - para o controle social e para a expansão do socialismo real, fico então muito preocupado sobre as conclusões do Lakoff nestes aspectos mencionados.
Resumindo, a guerra de comunicação, propaganda e no campo cultural é reconhecidamente importante. Especialmente depois da II guerra mundial, quase todos os Estados - aliados a quaisquer dos lados da guerra fria que a partir dai se instalou - passaram a ter um forte controle sobre a produção cultural. O que é um equívoco do Lakoff - na minha opinião - é o simplismo de tentar reduzir a arena da disputa política a uma mera disputa entre conservadores e liberais, sendo os conservadores a encarnação do mal e os liberais a encarnação do bem e do progresso.
A seguir, Lakoff afirma que os progressistas - ou liberais - deram sem saber uma enorme vantagem aos conservadores na guerra cultural. Para ele, os conservadores radicais procuram e tem conseguido introduzir:
a) uma hierarquia autoritária baseada na vasta concentração e controle da riqueza;
b) uma ordem baseada no medo, intimidação e obediência;
c) um governo quebrado e fraco;
d) nenhum equilíbrio de poder;
e) deslocamento das prioridades do setor público para os setores corporativos e militares;
f) responsabilidades deslocadas da sociedade para o indivíduo;
g) controle das eleições através do controle sobre quem vota e como os votos são computados;
h) controle ideológico através da mídia;
i) valores da família patriarcal projetados sobre a religião, política e mercado.
Neste ponto, é preciso situar o discurso do Lakoff: ele escreve no início do Gov. Bush, que ganhou do Al Gore - preferido do Lakoff e de todos os "progressistas" - em uma eleição suspeita.
Embora este livro "The Political Mind" tenha sido editado em 2008, outro livro do Lakoff, que segue a mesma linha deste, intitula-se "Moral Politics: How Liberals and Conservatives Think", e foi editado em 1996. No prefácio deste livro para a sua 2ª edição, o Lakoff anota: "Para mim este livro é mais relevante para as questões que nós enfrentamos hoje em 2001 do que quando ele foi publicado primeiro em 1996. A amargura da tentativa de impeachment do Clinton e a contagem de votos na Flórida depois das eleições presidenciais de 2000 mostraram um país dividido."
É verdade que o país (os EUA) estava dividido entre Bush e Al Gore em 2000. Mas é verdade também que a reeleição do Bush se deu por ampla maioria de votos. Neste ponto, muitos de nós certamente concordamos que o Bush usou os atentados do fatídico 11 de setembro como justificativa para uma série de ações autoritárias que se encaixam como uma luva nos itens listados acima, particularmente os itens a),b) e d).
Para evitar todo o particularismo que prejudica sobremaneira a validade e generalidade dos reconhecidos avanços da ciência cognitiva, especialmente seus reflexos sobre a teoria política, vou fazer uma leitura buscando filtrar e contra-argumentar aquilo que considero excessivo.
É uma pena, reitero, que ele tenha focado quase que exclusivamente na política norte-americana.
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