domingo, junho 27, 2010

Mantega critica ajuste ''à custa do Brasil''

OU: POR QUE QUE A GENTE É ASSIM?

Em reunião do G-20, ministro diz que países ricos não devem fazer ajuste fiscal severo e aumentar as exportações para emergentes
27 de junho de 2010

Patrícia Campos Mello e Luciana Xavier - O Estado de S.Paulo

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem que a Europa não pode "fazer ajuste fiscal às custas do Brasil" e de outros países emergentes, reduzindo sua demanda doméstica por causa de aperto fiscal e aumentando as exportações. "É preciso que os emergentes não carreguem nas costas a retomada (global); países avançados exportadores não devem fazer um ajuste severo", disse Mantega em entrevista.

O recado tinha endereço certo: a Alemanha é o maior país exportador da Europa e a chanceler Angela Merkel defende de forma enérgica a adoção de medidas de austeridade em seu país. Mantega disse que, em caso de ajustes severos na Europa, pode haver agravamento de déficit em transações correntes em países emergentes.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, afirmou que os integrantes do G20 concordaram em reduzir pela metade os déficits fiscais até 2013. Segundo Mantega, esse objetivo não é "factível" para muitos países que têm déficits acima de 10%.

Reduzir pela metade os déficits seria "draconiano e exagerado", disse o ministro. Ele avalia que muitas economias avançadas ainda não estão em condições de retirar todos os estímulos e fazer apertos fiscais fortes, sob o risco de prejudicar o crescimento. "Se exagerar na dose, mata o paciente", comparou.

Na última cúpula de líderes do G20, em Pittsburgh em setembro de 2010, ficou estabelecido um framework para reequilibrar a economia mundial - os países com superávit em conta corrente, principalmente a China, mas também Alemanha e Japão, se comprometem a estimular a demanda interna e não depender tanto de exportações. Já países consumidores como os EUA se comprometem a aumentar a poupança e dividir o déficit em conta-corrente, exportando mais e importando menos. Para o Brasil, o aperto fiscal dos europeus vai contra o framework.

"Quero deixar claro que sou favorável a ajustes fiscais. No Brasil, já estamos aumentando o resultado fiscal e retomamos a trajetória de redução da dívida. Mas vejo ansiedade de alguns governos em fazer logo o ajuste fiscal, principalmente nas economias avançadas", afirmou Mantega. "A consolidação da recuperação (mundial) pode ser ameaçada pela pressa na retirada dos estímulos", insistiu.

Reforma financeira. Segundo Mantega, a reforma financeira global também deve ter avanços no comunicado de hoje. O ministro disse que a reforma deve estar formatada e aprovada até a próxima reunião do G20, em Seul, Coreia, em novembro. Os países teriam prazo até 2012 para implementar as medidas previstas na reforma, como o aumento de exigência de capital em bancos e políticas de desincentivo ao risco.

Em relação à taxa bancária, ele admitiu que as divergências continuam, "Achamos que os países devem fazer a taxação que acharem necessária; Grã-Bretanha e EUA já fizeram, mas isso não significa que nós tenhamos de fazer", disse Mantega. "Já temos mais impostos e nossos bancos não criaram problemas".

Mantega voltou a falar em antecipar a reforma das cotas do FMI para novembro, em Seul, em vez do primeiro semestre de 2011. O ministro brasileiro disse ainda que a China "demonstrou boa vontade" ao flexibilizar o yuan. "Precisamos saber em que velocidade vai ocorrer a valorização da moeda chinesa", disse. "É um passo positivo, mas apenas um primeiro passo."

Analistas têm poucas expectativas sobre o comunicado de hoje. "O resultado da cúpula será limitado por causa das grandes divergências entre os Estados, principalmente em relação a coordenação de estímulos, redução de déficit e resolução de desequilíbrios" disse o analista Dan Alamariu, do Eurasia Group.

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Comentário meu:

Esta notícia apenas confirma o que escrevi no post abaixo. Enquanto o Brasil e EUA querem retomar a "festa", a Europa se prepara para um longo e tenebroso "inverno", que se materializaria como uma recessão - talvez depressão - fruto de fortes ajustes fiscais.
Lula e seu mensageiro relutam e se alinham aos EUA, principalmente porque todo líder populista sempre pretende adiar qualquer medida impopular.

A questão, que pode minar o projeto de poder do Lula e do seu "poste" Dilma "Vazio na cédula" Rousseff, é que a União Européia está decidida a retomar a riqueza emprestada - e mal gasta - aos EUA. Para a U.E., é uma questão de reserva de valor a longo prazo, enquanto para os EUA uma questão de sobrevivência como potência a curto prazo. São dois pólos de uma negociação, cada um com uma perspectiva e um horizonte diferentes.

O fato de que quase toda reserva de valor do mundo está atrelada - direta ou indiretamente - ao dólar e ao sistema econômico-financeiro norte-americano, funciona como uma chantagem que pode até vir a dar certo, mas que certamente deixará sequelas profundas nas relações entre os ricos do mundo. Você ficaria feliz ao saber que o dinheiro que garantiria sua aposentadoria tranquila foi gasto numa farra pelos seus sobrinhos-netos norte-americanos? A social-democracia européia e o estado do bem-estar social foram criados a partir do pós-guerra sobre algumas premissas, e uma delas é que a Europa transferiria sua riqueza para os EUA, que gerariam valor a partir deste capital para manter este estado de coisas.

Em outras palavras, esta é uma disputa pela riqueza. Desde o fim da II guerra a Europa transferiu sua riqueza para os EUA, atrelando seu destino ao capitalismo norte-americano, que se tornou o capitão do mundo. Agora, depois que os déficits se tornaram insustentáveis e mostraram finalmente ao mundo que um dia a festa tinha que terminar, a Europa pretende combater o mal pela raiz, enfrentando um longo e tenebroso período de ajustes, enquanto EUA e Brasil pretendem manter a festaa qualquer preço, como se fosse possível resgatar a confiança em uma economia sem bases sólidas, baseada em fortes desequilíbrios fiscais e numa farra de consumo obviamente insustentável.

O que o Lula/Mantega de um lado e EUA do outro não conseguem perceber é que a festa definitivamente terminou, e que a farra foi muito forte, deixando uma ressaca monumental. A U.E. pretende curar a ressaca, enquanto Lula e Obama querem pedir "mais uma dose".

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