Uma das coisas mais difíceis da minha vida foi admitir para mim mesmo que não acredito na existência de Deuses em geral, e no Deus da tradição judaico-muçulmana-cristã, em particular. As dificuldades foram inúmeras:
a) fui criado numa família católica, que ia à missa dominical e acreditava em todos os santos católicos;
b) estudei desde sempre em colégios de padres e/ou de freiras. A salvação só veio quando estudei na Escola Técnica Federal, essencialmente laica;
c) nossa sociedade, a brasileira, ainda é extremamente conservadora, especialmente no nordeste.
Por todas estas razões, e também por não querer trazer para mim mais um signo de diferença, pois já tenho vários - sou canhoto, penso independentemente, prefiro ler e pesquisar a ver TV, não gosto de futebol, o meu lugar predileto é minha casa, minha atividade predileta é leitura, et cetera -, talvez por isto recalquei esta idéia até quando pude.
Até que, certo dia, examinei a idéia de Deus de uma forma tal que sua existência me pareceu o mais completo absurdo. No íntimo, sempre tentei acreditar em Deus afastando a fé do escrutínio razão, uma estratégia inteligente que as Igrejas passaram a difundir à medida em que a ciência avançava, explicando os fenômenos naturais e derrubando os mitos bíblicos. Aquelas verdades absolutas e dogmas da escolástica medieval, insustentáveis, cederam lugar a uma segregação cômoda: vocês cuidam do mundo material, enquanto nós do mundo espiritual.
Vale a pena fazer uma digressão sobre a evolução do relacionamento entre as Igrejas - a Católica Romana, em particular - e a Ciência, especialmente no fim da Idade Média, entre os séculos XVII e XVIII. As revoluções que se deram nesta época - a Científica, o Iluminismo, o Renascimento, a Francesa - conseguiram solapar da Igreja parcelas significativas de poder, à medida que seus dogmas e crenças - melhor seria dizer crendices - foram sendo desmoralizados e desmascarados. Ameaçada diretamente em seu campo pelo Protestantismo surgido com a Reforma, a Contra-Reforma somente teria sucesso se fosse capaz de delimitar um campo imune às descobertas científicas, e este campo é o espiritual. Seria preciso travestir os dogmas religiosos de forma que estes não estivessem ao alcance da ciência, e para isto nada melhor que criar um mundo paralelo e fictício. Como poderia a Ciência negar a INEXISTÊNCIA de uma coisa qualquer, do mundo espiritual, por exemplo? Assim, protegida da evolução da ciência, as Igrejas podem continuar sendo um dos negócios mais lucrativos deste planeta.
Mas às Igrejas não interessam obviamente o espírito dos fieis, a elas interessam muito mais os seus corpos e seus bens materiais, que foram sempre a base e a fonte do poder das Igrejas - e a razão das grandes Cismas havidas entre elas - ao longo dos séculos e milênios.
Assim, o último século representou um grande desafio para a Igreja: como controlar os corpos e a matéria através da fé no espírito? Neste ponto não havia o que inovar, pois a Igreja sempre soube que a melhor maneira de manter um escravo é através do medo e da esperança.
Muitos de nós temem o castigo divino muito mais do que almejam o céu. Não é à toa que a Igreja mantém a parte Hebraica - o antigo testamento - ao lado do novo: naquela o Deus que se apresenta é o Deus da vingança, o Deus que deve ser temido muito mais que amado, enquanto nesta o Deus é puro amor. Morde e assopra, castiga e abençoa, este é o Deus ideal, sempre bem vestido para cada ocasião.
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